quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

OFICIALMENTE VELHO

 

Por Leonardo Boff, em 14/12/2008.

Neste mês de dezembro, completo 70 anos. Pelas condições brasileiras, me torno oficialmente velho. Isso não significa que estou próximo da morte, porque esta pode ocorrer já no primeiro momento da vida. Mas é uma outra etapa da vida, a derradeira.
Esta possui uma dimensão biológica, pois, irrefreavelmente, o capital vital se esgota, nos debilitamos, perdemos o vigor dos sentidos e nos despedimos lentamente de todas as coisas. De fato, ficamos mais esquecidos, quem sabe, impacientes e sensíveis a gestos de bondade que nos levam facilmente às lágrimas,

Mas há um outro lado, mais instigante. A velhice é a última etapa do crescimento humano. Nós nascemos inteiros. Mas nunca estamos prontos. Temos que completar nosso nascimento ao construir a existência, ao abrir caminhos, ao superar dificuldades e ao moldar o nosso destino. Estamos sempre em gênese. Começamos a nascer, vamos nascendo em prestações ao longo da vida até acabar de nascer. Então, entramos no silêncio. E morremos.

A velhice é a última chance que a vida nos oferece para acabar de crescer, madurar e, finalmente, terminar de nascer. Neste contexto, é iluminadora a palavra de São Paulo: "Na medida em que definha o homem exterior, nesta mesma medida rejuvenesce o homem interior"(2Cor 4,16). A velhice é uma exigência do homem interior. Que é o homem interior? É o nosso eu profundo, o nosso modo singular de ser e de agir, a nossa marca registrada, a nossa identidade mais radical. Essa identidade devemos encará-la face a face.

Ela é pessoalíssima e se esconde atrás de muitas máscaras que a vida nos impõe. Pois a vida é um teatro no qual desempenhamos muitos papéis. Eu, por exemplo, fui franciscano, padre, agora leigo, teólogo, filósofo, professor, conferencista, escritor, editor, redator de algumas revistas, inquirido pelas autoridades doutrinais do Vaticano, submetido ao "silêncio obsequioso" e outros papéis mais.

Mas há um momento em que tudo isso é relativizado e vira pura palha. Então, deixamos o palco, tiramos as máscaras e nos perguntamos: afinal, quem sou eu? Que sonhos me movem? Que anjos me habitam? Que demônios me atormentam? Qual é o meu lugar no desígnio do Mistério? À medida que tentamos, com temor e tremor, responder a essas indagações, vem a lume o homem interior. A resposta nunca é conclusiva; perde-se para dentro do inefável.

Este é o desafio para a etapa da velhice. Então, nos damos conta de que precisaríamos muitos anos de velhice para encontrar a palavra essencial que nos defina. Surpresos, descobrimos que não vivemos porque simplesmente não morremos, mas vivemos para pensar, meditar, rasgar novos horizontes e criar sentidos de vida.

Especialmente para tentar fazer uma síntese final, integrando as sombras, realimentando os sonhos que nos sustentaram por toda uma vida, reconciliando-nos com os fracassos e buscando sabedoria. É ilusão pensar que esta vem com a velhice. Ela vem do espírito com o qual vivenciamos a velhice como a etapa final do crescimento e de nosso verdadeiro Natal.

Por fim, importa preparar o grande encontro. A vida não é estruturada para terminar na morte, mas para se transfigurar através da morte. Morremos para viver mais e melhor, para mergulhar na eternidade e encontrar a última realidade, feita de amor e de misericórdia. Aí, saberemos, finalmente, quem somos e qual é o nosso verdadeiro nome.

Nutro o mesmo sentimento que o sábio do Antigo Testamento: "Contemplo os dias passados e tenho os olhos voltados para a eternidade".

Alimento dois sonhos, sonhos de um jovem ancião: o primeiro é escrever um livro só para Deus, se possível com o próprio sangue; e o segundo, impossível, mas bem expresso por Herzer, menina de rua e poetisa: "Eu só queria nascer de novo, para me ensinar a viver". Mas como isso é irrealizável, só me resta aprender na escola de Deus. Parafraseando Camões, completo: mais vivera se não fora, para tão longo ideal, tão curta a vida.

Por Leonardo Boff*
*Teólogo, professor e membro da Comissão da Carta da Terra
Petrópolis, 14 de dezembro de 2008.

domingo, 27 de dezembro de 2009

ORAÇÃO DE ANO NOVO





"Senhor Deus, dono do tempo e da eternidade. Teu é o hoje e o amanhã,o passado e o futuro.

Ao acabar mais um ano, quero te dizer obrigado por tudo aquilo que recebi de Ti.

Obrigado pela vida e pelo amor, pelas flores, pelo ar e pelo sol, pela alegria e pela dor, pelo que foi possível e pelo que não foi.

Ofereço-te tudo o que fiz neste ano, o trabalho que pude realizar, as coisas que passaram pelas minhas mãos e o que com elas pude construir.

Apresento-te as pessoas que ao longo destes doze meses pude ajudar e aquelas com as quais compartilhei a vida, o trabalho, a dor e a alegria.

Mas também, Senhor, hoje quero te pedir perdão.

Perdão pelo tempo perdido, pelo dinheiro mal gasto, pela palavra inútil e pelo amor desperdiçado.

Perdão pelas obras vazias e pelo trabalho mal feito, perdão por viver sem entusiasmo.

Também pela oração que aos poucos fui adiando e que agora venho apresentar-Te.
Por todos meus esquecimentos, descuidos e silêncios, novamente te peço perdão.

Nos próximos dias começaremos um novo ano.

Paro a minha vida diante do novo calendário que ainda não se iniciou e apresento-te estes dias, que somente Tu sabes se chegarei a vivê-los.

Hoje, te peço para mim, meus parentes e amigos, a paz e a alegria, a fortaleza e a prudência, a lucidez e a sabedoria.

Quero viver cada dia com otimismo e bondade, levando a toda parte um coração cheio de compreensão e paz.

Fecha meus ouvidos a toda falsidade e meus lábios as palavras mentirosas, egoístas ou que magoem.

Abre, sim, meu ser a tudo o que é bom.

Que meu espírito seja repleto somente de bênçãos para que as derrame por onde passar.

Enche-me, também, de bondade e alegria para que todas as pessoas a quem eu encontrar no meu caminho possam descobrir em mim um pouquinho de Ti. Dá-nos um Ano Feliz, e ensina-nos a repartir felicidade."

P R E C E D E N A T A L



"Senhor!


Sou como todos. Também tenho os meu pedidos especiais.

Mas não se preocupe! Tenho pouco de novo a pedir.

Tenho, é verdade, muito mais a agradecer. Mas Natal não é Natal se a gente não se ajoelhar diante da tua Sabedoria pra refazer todos aqueles pedidos de que tua Bondade já sabe que a gente precisa.

Olha, dá um jeitinho de acabar com todas as guerras. Essa gente já brigou por tanta coisa!!! Faz com que eles vejam a inutilidade de tanta disputa.

Também tem aqueles que não sabem amar e só odeiam. Faz com que eles entendam que o nosso tempo é tão curto para se desperdiçar com sentimentos menores.

Ah… tem também aqueles que me magoaram.
Faz com que eu me esqueça do que houve e me dá luz e grandeza prá eu aprender a perdoar.

Ainda tem aqueles que se encontram desesperados.
Dá-lhes conforto, um motivo de vida e mostra-lhes a maravilha operada pela palavra Esperança.

Tem aqueles que já são meus amigos antigos.
Para esses eu peço o que sempre pedi: Que eu possa sempre ser o que esperam de mim e, se não o for, que possam entender meus limites.

Agora, tem os meus novos amigos. Para esses, o que eu peço é lindo e grandioso.
Que o milagre que fez a gente se encontrar continue só operando belezas em nossas vidas.

Ah… e tem um alguém especial por quem eu quero pedir.
É alguém que tornou minha vida mais linda e feliz.

Dá um jeitinho desse alguém nunca sumir,
Já que não há como viver sem ter ele por perto.
Que eu possa esquecer as tristezas do ano passado
e, nesta prece, só te pedir alegria.

Faz com que eu possa acreditar que o mundo
pode ainda ser melhor,
E pra isso eu te peço…Fé.
Que assim seja! Amém!

Paz e Bem, sempre!

Colaboração: Maysa Amarante

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Onde está a sua estrela




"

A sensação é sempre a mesma. O ano passou tão rápido.Parece que o tempo anda cada vez mais acelerado. O tempo que sonhamos para nossas realizações futuras parece estar longe e lento. Enquanto isso o tempo vivido parece tão pequeno diante das marcas que ficaram na nossa alma e que estão estampadas em nosso rosto.

Fim de ano.

Natal.

Ano Novo.

Tempo de Reflexão.

Ao menos agora podemos refletir inevitavelmente sobre ele, o tempo. Mais alguns dias e o calendário vai mudar, marcando uma nova volta dada em torno do sol. Viajamos pelo cosmo todos os dias, e muitas vezes mais do que os pés presos ao chão, nosso olhar também não se aventurou na investigação da paisagem celeste. O trajeto se repete a bilhões de anos num universo em constante mudança que nos trouxe e nos levará para algum outro lugar. A trajetória da terra, nave mãe, e dos outros astros continua a mesma. Ainda assim temos o mínimo de conhecimento para entender com clareza para onde estamos indo e por quê.

No entanto, somos portadores de um significado que transcende a ordem cósmica que se sustenta no caos de mais de 100 bilhões de galáxias. Como pontos infinitamente diminutos diante do gigantismo dos corpos celestes, adquirimos grandeza a partir do significado que podemos dar a nossa existência. Por uma força estranha que não sabemos explicar direito, somos parte de tudo que está no ar. Nos sustentamos de maneira mágica.

Se não entendemos quase nada o que nos faz acreditar e continuar? O que faz você acordar do sono para o sonho? Onde está sua razão de viver e buscar respostas?

Cada um pode achar sua estrela guia no lugar onde está. Olhando para o infinito azul do céu ou do mar, na corrente elétrica que conecta cada olhar, e principalmente, nas profundezas de seu ser, há uma estrela a te guiar. Ela pode ter o nome que você quiser dar, Jesus, Buda, Alá.

Esse é o momento de trazer para a superfície da sua mente a memória divina que faz tudo ser presente. Que faz de uma vida inteira, simplesmente um instante onde se realiza a vida de todas as formas, sem conflitos. Em verdadeira plenitude e paz...

Este é o momento de entender que há um propósito maior, e que cada um de nós faz parte dessa grandeza. Assim podemos deixar de ser o fragmento de matéria biológica para ser parte da energia que harmoniza tudo. Da célula mais primitiva e necessária à força que sustenta o sistema solar.

Diante dessa perspectiva, que você encontre o melhor significado para suas derrotas e vitórias, tristezas e alegrias, seu sofrimento e sua felicidade. E inclua na existência o propósito que integrará você a freqüência do bem maior: a magia de viver e ser parte de tudo.

Mensagem da turma do PRIMEIRO PROGRAMA

www.primeiroprograma.com.br

"

FÉ NO FUTURO










O pessimismo pode até evitar que a gente cometa algumas besteiras, mas não leva ninguém para frente. Aliás, não leva a lugar nenhum, porque nos deixa paralisados. E com isso desequilibra a balança da auto-estima. Segundo os especialistas em comportamento, pessoas emocionalmente estáveis, que encaram a vida com esperança, são aquelas que

... não generalizam o que deu errado, achando que são azaradas e que nada mais vai dar certo.

...não vivem se culpando por tudo.

...procuram estar cercadas por pessoas positivas, cheias de energia e que riem bastante.

... concentram-se na solução dos problemas, não nos problemas.
E não se queixam sem motivo.

...sempre olham o lado bom das coisas, direcionando o foco para o que funciona.

...gostam de si mesmas, comemoram e falam sobre suas conquistas com naturalidade.

...não enxergam somente as qualidades alheias. As outras pessoas também não são perfeitas.

...não têm medo de demonstrar amor com gestos e palavras.

...não levam tudo a sério (o bom humor dissipa tensões).

...agem em vez de ficar se lamentando da falta de sorte.

...quando querem alguma coisa, vão à luta e não desistem diante da primeira dificuldade. Nem da segunda, terceira ou quarta.

...são pacientes com os outros e consigo também.

Faça parte desse time, você também!

Acredite.

Por Márcia Lobo – Revista Cláudia, Fev 2005.


Considerações sobre o abraço

Em meio à multidão que se acotovela na procissão no Domingo de Ramos, uma mulher desesperada procura por sua filha pequena. Muitas lágrimas e alguns copos de água com açúcar depois, aparece a menina mais que feliz, abraçada a um mendigo que, frente às evidências, jamais passara pela insólita experiência de um banho. A mulher, minha mãe. A criança desgarrada, eu.

Já vai longe aquela Semana Santa, e essa história que minha mãe contava, me vem à memória quando me acometem considerações sobre as delícias de um abraço.

Abraço. Tantas são as definições. Entretanto, nenhuma delas apreende o real significado dessa troca de energia.

A larga experiência nessa prática, à qual sou afeita e militante. me assegura que não todas as pessoas têm disposição e competência para esse entrelaçamento de corpo e de alma. Dois em um, um em dois, despidos dos pudores sem juízo, inoculados e em nós sedimentados graças à repressão das espontâneas demonstrações físicas de sentimentos e emoções.

Abraço, essa prosaica iguaria afetiva, recurso de partilhamento, intimidade permitida em público, é também eficiente curativo para contusões no ego, tombos da auto-estima, lesões na vaidade, vendaval na vida interior de todas as pessoas. Estreita os laços, amplia a amizade, quebra o gelo, esquenta o clima, esfria os espíritos esquentados. É entrega e aceitação, doação e acolhimento. Abraço é isso, igual em seu contrário.

Que graça teria a vida sem a invenção do abraço?...

Abraço não tem contra-indicação, tampouco efeitos nocivos, apenas os seus adoráveis efeitos colaterais. Abraço não tem preço; custa nada.

E o melhor: está ao alcance dos seus braços. Não é o máximo?!

E aí, tá esperando o quê?...

Mexa-se! Abrace essa idéia e vá abraçar todo mundo!

(Maria Balé, escritora, fotógrafa, possui a estranha mania de ter fé na vida; colunista do www.primeiroprograma.com.br

Riqueza

Muito além do acúmulo de dinheiro ou bens a riqueza é a qualidade que proporciona o preenchimento interior e possibilita o preenchimento das necessidades dos outros.

Enquanto a riqueza material pode diminuir com o gasto, a riqueza espiritual só tente a crescer com o uso. Quando você compartilha sabedoria, amor, alegria e paz, você se sente mais sábio, amoroso, feliz e pacífico. Isso porque, para compartilhar esses sentimentos, primeiro você os sente em seu coração.
E, quando faz com que os outros sintam amor, todo esse sentimento bom volta para você. E assim, o amor vai crescendo, crescendo e aumentando a sua riqueza.

O amor ...

"Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos. Não contaram pra nós que amor não é acionado, nem chega com hora marcada.

Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável.

Fizeram a gente acreditar numa fórmula "2 em 1": duas pessoas pensando igual, agindo igual, que era isso que funcionava. Não nos contaram que isso tem um nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável.
Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.

Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, e os que transam pouco são caretas, e os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto.

Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que essas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas.

Ah! Também não contaram que ninguém vai contar isso tudo pra gente. Cada um vai ter que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém."

(por Martha Medeiros)

Lenda Oriental

Conta uma popular lenda do Oriente que um jovem chegou à beira de um oásis junto a um povoado e, aproximando-se de um velho, perguntou-lhe:

- "Que tipo de pessoa vive neste lugar?

- "Que tipo de pessoa vivia no lugar de onde você vem?" - perguntou por sua vez o ancião.

- "Oh, um grupo de egoístas e malvados - replicou o rapaz. Estou satisfeito por ter saído de lá."

A isso o velho replicou:

- "A mesma coisa você haverá de encontrar por aqui."

No mesmo dia um outro jovem se acercou do Oásis para beber água e, vendo o ancião, perguntou-lhe:

- "Que tipo de pessoa vive por aqui?"

O velho respondeu com a mesma pergunta:

- Que tipo de pessoa vive no lugar de onde você vem?

O rapaz respondeu:

- "Um magnífico grupo de pessoas, amigas, honestas, hospitaleiras. Fiquei muito triste por tê-las deixado".

- "O mesmo encontrarás por aqui"- respondeu o ancião.

Um homem que havia escutado as duas conversas perguntou ao velho :

- "Como é possível dar respostas tão diferentes à mesma pergunta?

Ao que o velho respondeu:

- "Cada um carrega em seu coração o meio ambiente em que vive. Aquele que nada encontrou de bom nos lugares por onde passou, não poderá encontrar outra coisa por aqui. Aquele que encontrou amigos ali, também os encontrará aqui, porque, na verdade, a nossa atitude mental é a única coisa em nossa vida sobre a qual podemos manter controle absoluto".

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Escutatória

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar, ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil.

Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma".

Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro:

"Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma".

Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios: reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio.

(Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, [...]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas.).

Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades.

Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado".

Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou".

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.


(por Rubem Alves)

Amigos já vêm prontos

Meus amigos do Sport Run Club, em 22/07/2012.

"Não gosto da frase "fazer amigos". É como se aportássemos ao mundo com o dom de produzi-los a nosso bel prazer, à nossa imagem e semelhança... A divindade da amizade pertence a outro reino, onde os deuses da perfeição é que determinam as leis.
Amigos surgem em nossas experiências no mundo. Não são feitos, são trazidos a nós prontos e acabados, carregando na algibeira defeitos e virtudes, ora mais de uns, ora mais de outros. Não chegam a nós por obra do acaso, antes surgem em nosso caminho como resposta à lei natural da vida, que nos impele na busca eterna da completude. O poeta Vinícius já avisava: "a gente não faz amigos, reconhece-os." Reconhecê-los, eis o desafio primário...
A gente reconhece um amigo quando ele ocupa em nós espaços que, sem o saber, mantemos vazios. E fazem isso com generosidade e, às vezes, quando precisamos, com sua incômoda presença. Como espelho, o amigo nos mostra nossos mais evidentes e irritantes defeitos.
Como parceiro, ajuda-nos a ver o outro lado do mundo, o que há depois da próxima curva da estrada. Como conselheiro, acelera nossos passos quando seguimos lentos demais, e nos ajudam a observar o crepúsculo como um anúncio otimista da chegada da escuridão noturna.
Cultivar amigos, sim, é a expressão adequada. Cultivar é criar condições para o nascimento e o desenvolvimento de sentimentos recíprocos. É estabelecer as condições para que a troca entre duas pessoas aconteça, e seja tão rica quanto equânime. Eu dou, eu recebo. Eu planto, eu colho. Eu cuido, eu sou abençoado.
Como na agricultura, cultivar implica em saber conservar, manter, preservar as condições mínimas para que a amizade, qual planta, cresça - muitas vezes, e principalmente -, apesar das condições mais adversas.
Uma frase de Saint-Exupèry, repetida à exaustão, afirma que somos responsáveis por aquilo que cativamos. Para amigos, eu penso diferente: somos responsáveis, sim, por cultivar aquilo que a vida nos traz como presente divino. Perder um amigo é perder uma oportunidade única de se tornar alguém melhor".
(Autor: Alexandre Pelegi, jornalista e consultor, é editor do Primeiro Programa, na Rede Transamérica FM)
Editado em 05/10/2012. 

O Mar

Você sabe por que o mar é tão grande?

Tão imenso?

Tão poderoso?

É porque teve a humildade de colocar-se alguns centímetros abaixo de todos

os rios.

Sabendo receber, tornou-se grande.

Se quisesse ser o primeiro, centímetros acima de todos os rios, não seria

mar, mas sim uma ilha.


Toda sua água iria para os outros e estaria isolado.

A perda faz parte.

A queda faz parte.

A morte faz parte.

É impossível vivermos satisfatoriamente

Precisamos aprender a perder, a cair, a errar e a morrer.

Impossível ganhar sem saber perder.

Impossível andar sem saber cair.

Impossível acertar sem saber errar.

Impossível viver sem saber viver.

Se aprenderes a perder, a cair, a errar, ninguém mais o controlará.


Porque o máximo que poderá acontecer a você, é cair, errar e perder.

E isto você já sabe.

Bem aventurado aquele que já consegue receber com a mesma naturalidade o

ganho e a perda,...

...o acerto e o erro, o triunfo e a queda, a vida e a morte.

(autor desconhecido)

Escutar o Coração

Ninguém conhece os mistérios da vida nem o seu sentido definitivo.


No entanto, para aqueles que desejarem acreditar
em seus sonhos e em si mesmos,
a vida é uma dádiva preciosa na qual tudo é possível.

E dentro desse mundo de fantasias e magia,
devemos guiar os nossos passos
de acordo com a voz do coração.

Esperança, fé e crença em coisas boas
serão a bússola que nos conduzirá pelos caminhos certos
na rota da felicidade e do sucesso.

A vida não faz promessas.
Nós é que determinamos para onde vamos.

A vida não dá garantia.
Apenas o tempo para fazermos as escolhas
e aprendermos com os nossos erros.

Se não ouvimos o coração, não crescemos.
Se não crescemos, a vida perde sentido.

O que ele nos diz é aquilo que prende a atenção
e a atenção determina o que deve ser feito.

Portanto, vá sempre para onde seu coração deseja
e jamais contrarie essa vontade.

(por Legrand)

sábado, 12 de dezembro de 2009

S O R R I S O


Que grande benção é um sorriso.

Oferecer um sorriso torna feliz o coração.

Enriquece quem recebe, sem empobrecer quem o doa.

Dura somente um instante, mas sua recordação permanece por longo tempo.

Ninguém é tão rico a ponto de dispensá-lo, nem tão pobre que não possa doá-lo.

O sorriso gera alegria, dá sustento no trabalho, sinal visível de amizade.

Um sorriso dá consolo a quem está cansado, triste, e renova a coragem no desânimo.

É um bem que não se pode comprar e deixa a vida bem melhor.

Se algum dia você encontrar alguém que não lhe ofereça um sorriso, seja generoso em dar o vosso - ninguém tem tanta necessidade quanto aquele que não sabe doar.

Desconheço o autor: 

Sorri

(Charles Chaplin)

Sorri, quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias, tristonhos, vazios
Sorri, quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri, quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros, cansados, doridos
Sorri, vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo vai supor

Que és feliz...

Fantástico! 

Editado em 06/09/2013. 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

FELICIDADE

Tudo, nessa vida, depende do seu esforço. Não do esforço físico ou do esforço para ganhar mais dinheiro. Aqui, trata-se do esforço para se tornar uma pessoa melhor, mais espiritual, positiva, paciente e virtuosa. Uns se esforçam para se transformar em craques de bola, outros para perder aquele excesso de peso. Mas, quantos pretendem se tornar seres humanos melhores, felizes e pacíficos? Esse é o desafio que todos deveríamos aceitar. Ainda que muitos queiram nadar na frente, correr mais rápido, ter mais dinheiro e sucesso, é preciso aprender a olhar para dentro se quisermos uma felicidade duradoura.

(por Brahma Kumaris)

Dicas Para Viver Bem

01-Elogie 3 pessoas por dia
02-tenha um aperto de mao forte
03-olhe as pessoas nos olhos
04-gaste menos do que ganha
05-saiba perdoar a si e aos outros
06-trate a todos,assim como gostaria de ser tratado
07-faça novos amigos
08-não adie uma alegria
09-saiba guardar segredos
10-surpreeda os que você ama com presentes inesperados
11-aceite sempre uma mão estendida
12-reconheça seus erros
13-sorria,não custa nada e não tem preço
14-pague suas contas em dia
15-não reze para pedir as coisas,peça sabedoria e coragem
16-dê as pessoas uma segunda chance
17-não tome nenhuma medida quando estiver cansado
18-respeite todas as coisas vivas
19-dê o melhor de si no trabalho
20-jamais prive uma pessoa da esperança,pode ser que ela só tenha isso
21-ame seu companheiro(A),como gostaria de ser amada(o)


(Autor desconhecido)

Escolhas de Uma Vida

Pedro Bial

A certa altura do filme Crimes e Pecados, o personagem interpretado por Woody Allen diz: "Nós somos a soma das nossas decisões". Essa frase acomodou-se na minha massa cinzenta e de lá nunca mais saiu. Compartilho do ceticismo de Allen: a gente é o que a gente escolhe ser, o destino pouco tem a ver com isso.

Desde pequenos aprendemos que, ao fazer uma opção,estamos descartando outra, e de opção em opção vamos tecendo essa teia que se convencionou chamar "minha vida".

Não é tarefa fácil. No momento em que se escolhe ser médico, se está abrindo mão de ser piloto de avião. Ao optar pela vida de atriz, será quase impossível conciliar com a arquitetura. No amor, a mesma coisa: namora-se um, outro, e mais outro, num excitante vaivém de romances. Até que chega um momento em que é preciso decidir entre passar o resto da vida sem compromisso formal com alguém, apenas vivenciando amores e deixando-os ir embora quando se findam, ou casar, e através do casamento fundar uma microempresa, com direito a casa própria, orçamento doméstico e responsabilidades.

As duas opções têm seus prós e contras: viver sem laços e viver com laços... Escolha: beber até cair ou virar vegetariano e budista? Todas as alternativas são válidas, mas há um preço a pagar por elas.

Quem dera pudéssemos ser uma pessoa diferente a cada 6 meses, ser casados de segunda a sexta e solteiros nos finais de semana, ter filhos quando se está bem-disposto e não tê-los quando se está cansado. Por isso é tão importante o autoconhecimento. Por isso é necessário ler muito, ouvir os outros, estagiar em várias tribos, prestar atenção ao que acontece em volta e não cultivar preconceitos. Nossas escolhas não podem ser apenas intuitivas, elas têm que refletir o que a gente é. Lógico que se deve reavaliar decisões e trocar de caminho: ninguém é o mesmo para sempre.

Mas que essas mudanças de rota venham para acrescentar, e não para anular a vivência do caminho anteriormente percorrido. A estrada é longa e o tempo é curto.Não deixe de fazer nada que queira, mas tenha responsabilidade e maturidade para arcar com as conseqüências destas ações.

Lembrem-se: suas escolhas têm 50% de chance de darem certo, mas também 50% de chance de darem errado. A escolha é sua!

Autor: Pedro Bial

TRAVESSIAS DA VIDA




As oportunidades da vida são como as brisas nas noites quentes de verão, elas vêm e vão e precisamos aproveitar cada minuto quando estão presentes para nos preparar para o depois. E quantas vezes elas chegam, vemos, somos conscientes, mas não fazemos nada. 

Duvidamos, simplesmente, de nós! São nossas barreiras emocionais, a insegurança, o medo, a falta de fé, que paralisam nossas pernas. Mas Deus jamais nos diz para atravessar sem que Ele mesmo nos forneça os meios para chegar do outro lado. Se não vamos, é porque confiamos demais nesse nosso lado humano e de menos na nossa parte que mais se parece com Deus, nosso lado espiritual. 

A guerra que se estabelece na nossa cabeça nos momentos de escolha é muito comum e todo mundo passa por isso, sem exceção. Há um lado que nos impele de ir em frente e o outro que nos enche de dúvidas. "E se?" "E se não der certo?" "E se eu não for capaz?" "E se não for isso?"

As desculpas que nos achamos para nos fazer desanimar são quase sempre mais evidentes e, não raro, muitos se apegam a elas e param no meio do caminho, ou seguem outra direção, como aconteceu com Jonas. Penso em Moisés, quando Deus pediu que fosse libertar o povo de Israel. Ele duvidou e tentou se desculpar dizendo que tinha problemas para falar.

Mas o Senhor, com Sua infinita sabedoria, retrucou que ele não estaria sozinho. E não estava mesmo. E foi, libertou o povo, o conduziu. Cumpriu assim a sua parte e tornou-se parte da história da humanidade. É nosso bom relacionamento com Deus que faz a diferença. Como no amor ou amizade, onde quanto mais próximos estamos de uma pessoa, mais acreditamos nela, mais confiamos.

Quando as oportunidades baterem à sua porta, antes de dizer não com um monte de desculpas que nem você mesmo acredita, olhe para o alto. Se uma vozinha responder dentro do seu coração e sua alma se encher de paz, é que você fez a boa escolha. Vá, então, em frente! Não espere ver todas as soluções de uma vez só, as flores nascem cada uma a seu tempo e há frutos para todas as estações.

Deus, que olha por você, vai plantar no seu caminho, vai te dar coragem, vai te motivar e te empurrar quando for preciso. Ele nunca nos prometeu um caminho sem dificuldades, um mundo sem aflições, mas nos disse para termos bom ânimo. Moisés, guiado por Deus, atravessou o mar. Não há nenhuma razão para que não atravessemos a vida como mais que vencedores.

Autora: Letícia Thompson


Uma Pescaria Inesquecível

Ele tinha onze anos e, a cada oportunidade que surgia, ia pescar no cais próximo ao chalé da família, numa ilha que ficava em meio a um lago.
A temporada de pesca só começaria no dia seguinte, mas pai e filho saíram no fim da tarde para pegar apenas peixes cuja captura estava liberada.

O menino amarrou uma isca e começou a praticar arremessos, provocando ondulações coloridas na água.
Logo, elas se tornaram prateadas pelo efeito da lua nascendo sobre o lago.
Quando o caniço vergou, ele soube que havia algo enorme do outro lado da linha.

O pai olhava com admiração, enquanto o garoto habilmente, e com muito cuidado, erguia o peixe exausto da água.
Era o maior que já tinha visto, porém sua pesca só era permitida na temporada.
O garoto e o pai olharam para o peixe, tão bonito, as guelras movendo para trás e para frente.

O pai, então, acendeu um fósforo e olhou para o relógio. Pouco mais de dez da noite...
Ainda faltavam quase duas horas para a abertura da temporada.

Em seguida, olhou para o peixe e depois para o menino, dizendo:
- Você tem que devolvê-lo, filho!
- Mas, papai, reclamou o menino.
- Vai aparecer outro, insistiu o pai.
- Não tão grande quanto este, choramingou a criança.

O garoto olhou à volta do lago. Não havia outros pescadores ou embarcações à vista.
Voltou novamente o olhar para o pai.
Mesmo sem ninguém por perto, sabia, pela firmeza em sua voz, que a decisão era inegociável.

Devagar, tirou o anzol da boca do enorme peixe e o devolveu à água escura.
O peixe movimentou rapidamente o corpo e desapareceu.
Naquele momento, o menino teve certeza de que jamais pegaria um peixe tão grande quanto aquele.
Isso aconteceu há trinta e quatro anos. Hoje, o garoto é um arquiteto bem-sucedido.
O chalé continua lá, na ilha em meio ao lago, e ele leva seus filhos para pescar no mesmo cais.

Sua intuição estava correta. Nunca mais conseguiu pescar um peixe tão maravilhoso como o daquela noite.
Porém, sempre vê o mesmo peixe todas as vezes que depara com uma questão ética.

Porque, como o pai lhe ensinou, a ética é simplesmente uma questão de CERTO e ERRADO.
Agir corretamente, quando se está sendo observado, é uma coisa.

A ética, porém, está em agir corretamente quando ninguém está nos observando.
Essa conduta reta só é possível quando, desde criança, aprendeu-se a devolver o PEIXE À ÁGUA.

A boa educação é como uma moeda de ouro:
TEM VALOR EM TODA PARTE

Autor desconhecido.

Amar o Inimigo

Amar o inimigo (a história de Plácido Domingo e Luciano Pavarotti)

Com certeza, o mais desafiante mandamento de Jesus é amar o inimigo.

Gustavo Gutiérrez, da Teologia da Libertação, costuma dizer que, para ser bom cristão, é preciso ter ao menos um inimigo, sem o que não se pode cumprir o preceito de Jesus. Muitos se perguntam como é possível ter amor a uma pessoa que me tem ódio ou me provoca sentimentos irados? Talvez a resposta esteja neste gesto de grandeza humana que relato abaixo.

Eis uma história que poucos conhecem... Todos se recordam do alcance mundial das temporadas em que trechos de óperas e clássicos do canto lírico reuniam três das melhores vozes do mundo: os tenores Luciano Pavarotti, da Itália, e os espanhóis Plácido Domingo e José Carreras.

De repente, o trio se calou. E isso aconteceu muito antes de Pavarotti decidir se aposentar. O que teria ocorrido? Domingo é madrileno, Carreras, catalão, e quem conhece a Espanha sabe da rivalidade que existe entre os habitantes das regiões de Madri e Barcelona. Mas não foi isso que afastou os dois tenores. Em 1984, eles tiveram uma forte desavença política. Não mais se falaram. E seus respectivos contratos passaram a exigir a ausência do desafeto nas apresentações públicas.

Em 1987, Carreras constatou que sofria de leucemia. Na Espanha, surgem cerca de 4.000 novos casos da doença por ano. O tenor submeteu-se ao transplante de medula óssea, a transfusões de sangue e a freqüentes viagens aos EUA, para tratamento. Sem poder cantar e cumprir os contratos, viu a sua fortuna consumida pelos cuidados de saúde.

Quase sem recursos, Carreras soube que havia em Madri uma instituição destinada à recuperação de pessoas com leucemia, a Fundação Hermosa. Entrou em contato, recebeu todo o apoio, curou-se e voltou a cantar. Graças aos seus altos cachês, refez as suas economias e decidiu doar parte de sua fortuna à obra da fundação, inscrevendo-se como colaborador permanente. Ao receber o contrato de adesão e ler os estatutos, constatou, surpreso, que o presidente da Fundação Hermosa e seu principal benfeitor chamava-se Plácido Domingo.


Ao investigar mais a fundo, o tenor catalão descobriu que Hermosa havia sido fundada para cuidar especialmente de um único enfermo: José Carreras. Plácido Domingo decidira preservar seu anonimato para não constranger o colega a aceitar a solidariedade de um inimigo.

Carreras viajou a Madri e compareceu a um espetáculo de Domingo. Subiu ao palco, interrompeu a apresentação, ajoelhou-se aos pés dele e agradeceu-lhe publicamente o seu restabelecimento. Inspirado no exemplo de Domingo, pouco depois Carreras inaugurou, em Barcelona, a Fundação Internacional José Carreras para a Luta contra a Leucemia (www.fcarreras.org/).

Mais tarde, um jornalista perguntou a Plácido Domingo por que havia criado a Fundação Hermosa para beneficiar um inimigo e concorrente nos palcos. O tenor madrileno respondeu: "Uma voz como a dele não pode calar".

(Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff, de "Mística e Espiritualidade" Ed. Rocco, entre outros livros)

Erro Favorito

(por Martha Medeiros - 06/março - Zero Hora/RS)

O que me conforta é que o apego aos meus erros me inspira versos, crônicas e ficção. Me ajuda a construir personagens, a dar-lhes uma vida que parece de verdade

Essa coisa de que a maturidade nos ensina a viver melhor é mais ou menos verdade. Ao entrarmos na segunda metade da vida, realmente ficamos mais espertos, não perdemos mais tempo à toa, compreendemos melhor nossas escolhas e renúncias, enfim, a vida se torna mais ágil, mas quanto aos erros e acertos, fica tudo na mesma. Acertamos onde já acertávamos antes, e erramos igualzinho como sempre erramos.


Nem mesmo se consegue trocar erros antigos por erros novos.


Eu cometo os mesmos erros desde que me conheço por gente. Desde guriazinha. Meu erro maior é a impaciência. Eu não sei esperar as pessoas darem o passo em minha direção, eu avanço e atropelo, porque a ansiedade não me permite atitudes civilizadas tipo "aguardar o momento do outro". Que aguardar, que nada.


- "Já tem a resposta?"

- "Você já está vindo pra cá?"

- "Leu meu e-mail?"

Logo eu, a defensora número 1 da placidez humana. A que considera a coisa mais notável do mundo ser calma e respeitar o ritmo natural da vida. A que faz poesia sobre o magnificência do tempo. A que estimula a meditação e a contemplação do universo. Balela. Sou uma fominha.

E claro que, depois de receber minhas respostas - meio capengas, por causa da minha pressa - eu fico me martirizando. Por que não esperei? Por que dei bandeira? Por que forcei a barra? Por que fui tocar naquele assunto espinhoso? Teria sido tão mais elegante ficar na minha. Prometo que da próxima vez ficarei de bico calado.

A próxima vez! Que piada. Nunca fui boa aluna, não vai ser agora que vou aprender alguma coisa.

Eu anuncio em primeira mão todos os meus atos e todos os meus sentimentos, extra, extra! Eu me jogo, me disponibilizo, me dispo, me coloco a serviço de deus e do diabo, eu não me economizo! Sou controladora, mas não controlada, enfio os 10 dedos na tomada, levo choque, e mais tarde repito a dose, novo choque: sou uma viciada em arrependimentos emocionais.


O que me conforta é que esse apego aos meus erros me inspira versos, crônicas e ficção, me ajuda a construir personagens, a dar-lhes uma vida que parece de verdade, e enriquece minha própria história, dá a ela credibilidade, já que ninguém confia muito em quem apenas acerta. Qual o seu erro favorito? Pode ser um homem que lhe despreza. Uma mulher que nunca retorna as ligações. Você se expõe demais. Ou de menos. Fala muito de você mesmo. Acredita nas mentiras que inventa. Em que erro você se apegou com tamanho carinho que nunca mais conseguiu abandonar?

Eu sei que a gente acerta muito, e os acertos nos transformam em alguém melhor, alguém que evolui, que sobe degraus no conceito da humanidade. A cada acerto somos reinaugurados, ficamos mais longe das nossas imperfeições. Mas é a reincidência nas bobeadas que autentica nosso lado mais verdadeiro, humano e normal.