sexta-feira, 29 de junho de 2012

REESCREVENDO MINHA HISTÓRIA


Com este título, neste mes de junho de 2012 estreei meu blog no Jornal Corrida, cuja matéria ficou assim: 



Reescrevendo minha história

APÓS COMPLETAR 65 anos e ingressar oficialmente naquela que é chamada de terceira idade, tive a felicidade de descobrir na corrida de rua uma maneira excepcional de renovar meu gosto pela vida e, sobretudo, uma ferramenta para melhorar minha saúde.


O que parecia impossível, no meu caso se tornou realidade. Até o ano de 2008 eu era viciado em bebida alcoólica e meu peso corporal chegou a ultrapassar os três dígitos. Fazia regimes, mas não conseguia manter o peso, por causa do uso abusivo da bebida.

Fiz então o que todo viciado deveria fazer: procurei ajuda médica. Usei medicamentos por apenas três meses e parei de beber totalmente no dia 11 de outubro de 2008. Comecei uma reeducação alimentar e emagreci 18 kg, mas tinha receio de não conseguir manter.

Como deve ocorrer com todas as pessoas que largam um vício, sentia um vazio muito grande e não tinha sequer vontade de me encontrar com meus amigos. Foi aí que comecei a intensificar minhas atividades físicas. Além de caminhadas, que já fazia regularmente, passei a fazer hidroginástica e também me matriculei numa academia.

Desde então, senti que minha vida começava a tomar um novo rumo. Mantive o peso de 82 kg, meu sono melhorou, as dores no corpo sumiram, inclusive uma tendinite no ombro, que me maltratava há anos. Enfim, RENASCI.

A corrida entrou em minha vida quase um ano depois, em setembro de 2009. Já tinha feito novos amigos na hidroginástica e na academia, mas a sensação que ainda faltava algo persistia. Na época, as corridas de rua começavam a despontar em Salvador, minha cidade, levando ao surgimento de algumas assessorias esportivas e clubes de treinamento. Inspirado em um amigo, ingressei num deles.

A partir daí, reescrevi minha história. Com orientação profissional, comecei a correr paulatinamente, aumentando a intensidade aos poucos, de acordo com meu condicionamento. Apaixonei-me pela corrida e diria que foi “amor à primeira vista”, pois, com menos de três meses já estava decidido a fazer minha primeira prova oficial. Para a estreia, escolhi a Corrida Sagrada, que acontece anualmente na 3ª quinta-feira do mês de janeiro, no mesmo dia da famosa Lavagem do Bonfim. O percurso é de 6.8 km e vai da Igreja da Conceição da Praia até à colina sagrada do Bonfim. Treinei com afinco e no dia 14 de janeiro de 2010, com o tempo de 45 minutos, ingressei oficialmente no mundo das corridas. Agradeci ao senhor do Bonfim a benção que me foi concedida e fiz o propósito de continuar participando todos os anos. Neste ano, fiz a mesma prova no tempo de 39 minutos.

Correr não é fácil. Não é sem razão que muitas pessoas desistem antes de completar três meses de treinamento. O segredo é persistência, determinação, regularidade, motivação e fixação de objetivos.

Hoje já participei de 33 provas de corrida de rua e posso garantir que CORREDOR NÃO TEM IDADE!

Até breve…

José Amâncio Neto – Bancário aposentado de Salvador (BA), começou a correr em 2009 para manter a saúde e fazer novos amigos. Além deste blog, é autor do corredordaterceiraidade.blogspot.com
Fale com o José Amâncio: TWITTER ou FACEBOOK

Conheça o Jornal Corrida: 





segunda-feira, 21 de maio de 2012

MUDANÇA DE HÁBITO: DA BEBIDA À CORRIDA


A Revista CONTRA-RELÓGIO, especializada em corrida e uma das mais conceituadas do país, publicou em sua edição de maio de 2012 uma matéria de autoria da Repórter Dart Araújo, a meu respeito, cujo texto é o seguinte:


" Mudança de hábito:
da bebida à corrida!
Por Dart Araújo
Correr é bom para muitas coisa, inclusive para ajudar os que lutam contra vícios que só mal trazem às pessoas, como o fumo e o álcool.

Frequentemente, nesta revista, trazemos histórias de superação de alguns corredores. Muitas bastante diferenciadas da que hoje iremos relatar. Alguns podem não se identificar com a  de Amâncio, no entanto é quase certo que você possui algum parente, ou até mesmo amigos que vivenciam esta situação. Não pretendemos trazê-lo uma narrativa penosa, mas sobretudo de exemplo, de um homem que no auge da sua maturidade despertou o interesse pela corrida e paralelamente a esta largou o vício da bebida. A história deste hoje corredor é com certeza de relevante superação e não nos caberia deixar de lado o seu encorajamento de se expor diante dos leitores da CR.
O gosto pela corrida chegou tardiamente na vida de José Amâncio Neto, ou melhor,  na hora exata. Bancário aposentado, o sergipano,  que se auto-intitula  corredor da terceira idade,  exibe uma disposição de causar inveja a qualquer jovem. Disciplinado, ele começou a correr em 2009, aos 65 anos, período em que ainda travava uma luta contra o alcoolismo.
Hoje, ex-viciado,  Amâncio relata que esta fase ficou para trás e de “levantador de copo” tornou-se um atleta amador. Apaixonado por corridas, o seu cotidiano deixou de ser numa mesa de bar, o que antes era bastante comum. Este trocou os amigos de “copo”, pelos amigos do grupo de corrida.
Emocionado, nos diz que o esporte mudou sua vida para melhor. Sobretudo porque se sente mais saudável, disposto e sem as dores marcadas pela idade. Seu convívio social hoje é outro; A família que o diga. “Tornei-me mais presente e deixei de colocar minha família em risco, como sempre fazia, quando bebia e dirigia”.
VICIADO EM ENDORFINA.  Amâncio enfatiza que, de viciado no álcool,  passou a ser um viciado em endorfina. “Esta foi a proeza que consegui, e que nem mesmo eu acreditava ser capaz. Por uns dois meses ‘contei postes’ e senti dificuldades para correr”. Além da idade, e do excesso de peso, Amâncio apresentava alterações fisiológicas em seus exames que o impediam de praticar. Mas que jamais o fizera desistir. Acreditava que se por 50 anos conviveu com a bebida, por que agora não conseguiria superar o vício através da corrida? E foi assim que ele reescreveu sua história.
Assim como antes dificilmente conseguia passar mais de 48 horas sem beber, hoje não consegue ficar semelhante tempo sem correr. “Tornei-me uma pessoa disciplinada, persistente e abnegada. Treino sob sol ou chuva, e tenho grande prazer em mostrar às pessoas, principalmente aos mais jovens, que com determinação e disciplina, se consegue o que antes parecia impossível. Em abril, farei 68 anos e me sinto uma pessoa feliz por ter despertado o gosto pela corrida e principalmente por ter deixado o vício da bebida.

“Correr não foi tarefa fácil, no entanto com o tempo muito aprendi”. E deixo uma dica aos mais jovens: invistam em saúde. Descubra alguma forma que lhe faça feliz e dê prioridade, dedique-se. Fazer atividades físicas é fundamental. Já está totalmente comprovado;  a máxima é verdadeira: com saúde você tem tudo, sem saúde nada se tem! Eu sou a prova disso. A corrida me faz uma pessoa melhor.”


No texto acima, faço a seguinte ressalva: foi inevitável a diminuição dos encontros com meus amigos de “copo”, mas trocá-los, jamais. São amigos de algumas décadas e nossas amizades continuam, graças a Deus, mesmo porque eles mesmos foram e continuam sendo meus maiores incentivadores, pois amigo de verdade sempre deseja o bem estar do outro.

Por outro lado, considero que a autora do texto foi muito feliz em fazer referência ao fato de que os leitores podem não se identificarem comigo, mas é muito provável que tenham algum parente ou amigo que enfrentam problemas semelhantes ao que enfrentei com a bebida.

Livrar-se de um vício como o álcool  é muito difícil. Não se pode negar que beber é prazeroso! Desse modo, a pessoa que recebe a benção de se libertar, não pode em nenhum momento fraquejar. Tem que continuar evitando o "primeiro gole", pois nunca se sabe se vai ter forças para resistir. Porisso evito ingerir quaisquer espécies de bebidas alcóolicas, há exatamente três anos, oito meses e onze dias.

No meu caso, eu precisei de ajuda médica e tenho certeza que as orações de minha esposa, Maria Graciene Oliveira Amâncio e de alguns verdadeiros amigos, foram e estão sendo fundamentais.

Também estou convencido de que estou conseguindo me manter sóbrio com a intercessão do Senhor do Bonfim e de Nossa Senhora Aparecida, de modo que agradeço diariamente a Eles por terem me concedido tamanha graça.

Quando eu bebia não frequentava a Igreja e nem rezava. Apesar de acreditar em Deus e me identificar como católico, não achava necessário.

A esse respeito, minha vida também mudou radicalmente. Atualmente faço parte da Campanha dos Devotos de Nossa Senhora Aparecida, e quase todos os dias, antes de ir treinar,  rezo o terço ouvindo o programa "Com a Mãe Aparecida", às 4h da manhã, o qual é retransmitdo pela Rádio Excélcior de Salvador, AM 840. Também assisto à missa aos domingos, na Igreja Nossa Senhora da Luz e quando não posso ir à Igreja, assisto pela internet, às 8h30m,  nos sites abaixo:

  ou




 De minha parte só tenho que agradecer. Sempre digo: se correr faz bem para a saúde,  rezar faz bem para tudo!!!
 Eu e minha esposa, Graciene Amâncio, na Igreja Nossa Senhora da Luz.

sábado, 5 de maio de 2012

CONSAGRAÇÃO À NOSSA SENHORA APARECIDA


Pe. Vitor Coelho de Almeida

Ó Maria Santíssima, que em vossa Imagem milagrosa de Aparecida espalhais inúmeros benefícios sobre o Brasil, eu, embora indigno de pertencer ao número dos vossos servos, mas desejando participar dos benefícios da vossa misericórdia, prostrado a vossos pés, consagro-vos o entendimento, para que sempre pense no amor que mereceis.

Consagro-vos a língua, para que sempre vos louve e propague a vossa devoção. Consagro-vos o coração, para que, depois de Deus, vos ame sobre todas as coisas. Recebei-nos, ó Rainha incomparável, no ditoso número dos vossos servos. Acolhei-nos debaixo da vossa proteção.

Socorrei-nos em nossas necessidades espirituais e temporais e, sobretudo, na hora da nossa morte. Abençoai-nos, ó Mãe Celestial, e com vossa poderosa intercessão fortalecei-nos em nossa fraqueza, a fim de que, servindo-vos fielmente nesta vida, possamos louvar-vos, amar-vos e render-vos graças no céu, por toda eternidade. Assim seja.

Pela intercessão de Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, a bênção de Deus onipotente, Pai, Filho e Espírito Santo desça sobre vós e permaneça sempre. Amém.


domingo, 22 de abril de 2012

AS SETE VERDADES DO BAMBU

BAMBU – As sete verdades

“Depois de uma grande tempestade, o menino que estava passando férias na casa do seu avô, o chamou para a varanda e falou:

Vovô corre aqui! Explica-me como essa figueira, árvore frondosa e imensa, que precisava de quatro homens para balançar seu tronco se quebrou, caiu com o vento e com a chuva… este bambu é tão fraco e continua de pé?

Filho, o bambu permanece em pé porque teve a humildade de se curvar na hora da tempestade. A figueira quis enfrentar o vento. O bambu nos ensina sete coisas. Se você tiver a grandeza e a humildade dele, vai experimentar o triunfo da paz em seu coração.

A primeira verdade que o bambu nos ensina, e a mais importante, é a humildade diante dos problemas, das dificuldades. Eu não me curvo diante do problema e da dificuldade, mas diante daquele, o único, o princípio da paz, aquele que me chama, que é o Senhor.

Segunda verdade: o bambu cria raízes profundas. É muito difícil arrancar um bambu, pois o que ele tem para cima ele tem para baixo também. Você precisa aprofundar a cada dia suas raízes em Deus na oração.

Terceira verdade: Você já viu um pé de bambu sozinho? Apenas quando é novo, mas antes de crescer ele permite que nasça outros a seu lado (como no cooperativismo). Sabe que vai precisar deles. Eles estão sempre grudados uns nos outros, tanto que de longe parecem com uma árvore. Às vezes tentamos arrancar um bambu lá de dentro, cortamos e não conseguimos. Os animais mais frágeis vivem em bandos, para que desse modo se livrem dos predadores.

A quarta verdade que o bambu nos ensina é não criar galhos. Como tem a meta no alto e vive em moita, comunidade, o bambu não se permite criar galhos. Nós perdemos muito tempo na vida tentando proteger nossos galhos, coisas insignificantes que damos um valor inestimável. Para ganhar, é preciso perder tudo aquilo que nos impede de subirmos suavemente.

A quinta verdade é que o bambu é cheio de “nós” (e não de eu’s). Como ele é oco, sabe que se crescesse sem nós seria muito fraco. Os nós são os problemas e as dificuldades que superamos. Os nós são as pessoas que nos ajudam, aqueles que estão próximos e acabam sendo força nos momentos difíceis. Não devemos pedir a Deus que nos afaste dos problemas e dos sofrimentos. Eles são nossos melhores professores, se soubermos aprender com eles.

A sexta verdade é que o bambu é oco, vazio de si mesmo. Enquanto não nos esvaziarmos de tudo aquilo que nos preenche, que rouba nosso tempo, que tira nossa paz, não seremos felizes. Ser oco significa estar pronto para ser cheio do Espírito Santo.

Por fim, a sétima lição que o bambu nos dá é exactamente o título do livro: ele só cresce para o alto. Ele busca as coisas do Alto. Essa é a sua meta.”

SEJA COMO O BAMBU... Ele verga mais não quebra...
(Pe. Léo
)
 


quarta-feira, 18 de abril de 2012

TRISTEZA E FELICIDADE - AMBAS SÃO NECESSÁRIAS




Filosofia - Tristeza


Maioria das pessoas nega a tristeza, mas essa é necessária

por Monica Aiub


"Por outro lado, os padrões observados culturalmente mostram uma tendência a negar toda e qualquer forma de tristeza, tentando eliminá-la a qualquer preço. Drogas – lícitas e ilícitas, processos de esquecimento e alienação, atividades constantes, entre outras formas, denotam a preocupação em manter a felicidade geral"

.

Tentarei abordá-la, aqui, diferentemente. É uma questão difícil, pois apesar de encontrarmos muitos filósofos que trataram e tratam da felicidade, nenhum deles a determina como uma coisa única, nem estabelece formas para nos tornarmos felizes. E isso é próprio da filosofia. Talvez a frase de Erasmo de Rotterdam, no Elogio da Loucura, que cito no artigo sobre o que é ser feliz – “A felicidade consiste em ser o que se é”, esboce um caminho para a questão.

Quando alguém afirma sentir-se feliz, o que isso significa? Como saber? Como é para você, leitor, sentir-se feliz? É o mesmo para as pessoas com as quais convive? Há como mensurar formas, intensidades de felicidade ou apenas nomeamos alguns de nossos estados subjetivos?

A felicidade, assim como nossas emoções, sentimentos, pensamentos, crenças, desejos, sonhos, etc. são estados mentais e estes só nos são acessíveis a partir de uma linguagem em primeira pessoa, ou seja, uma descrição sobre o que sentimos. Não há como ter acesso aos sentimentos de outros senão através de suas descrições e o mesmo ocorre conosco: os outros não têm acesso ao nosso sentir, exceto se o descrevermos. Ainda assim, quando descrevemos o que sentimos, o outro interpreta a partir de seus próprios referenciais, o que o impede de ter uma concepção exata de nosso sentir.

O que significa, então, para uma pessoa, ser feliz? Será que todas as vezes que você afirmou estar feliz, sua afirmação se referia exatamente a um mesmo estado? Ou haveria diferentes estados de felicidade? É comum cobrarmos de nós mesmos e dos outros um padrão de felicidade. Todos devemos nos sentir felizes com nossas vidas, com nossos afazeres cotidianos, com nosso trabalho, com nossas relações... Partindo de nosso próprio existir, de nosso cotidiano, o leitor considera possível ser feliz o tempo inteiro? Observo, no consultório de filosofia clínica, a perplexidade de algumas pessoas com o fato de não se sentirem felizes em contextos onde “deveriam” sentir felicidade. Ou ainda, mais perplexas por nunca terem sentido isso que dizem ser “felicidade”.

Poderíamos falar que “devemos” ser felizes? O que isto significa? Em geral, nas falas que aqui cito, significa corresponder a um padrão do que é considerado, socialmente, felicidade. Estar sempre sorrindo, animado, motivado, com vontade de se relacionar, de ir a lugares, de se divertir... Se ampliarmos o espectro de observação dos contextos sociais, poderemos verificar que os padrões poderão variar de acordo com uma série de fatores. Mas isto, na maioria das vezes, sequer é considerado. Além disso, as formas como as pessoas se constituem, como são, como lidam com suas questões, são diferentes; assim, o que me faz feliz pode não fazer o outro feliz. O que me traz felicidade poderá trazer aborrecimento ou tédio a outras pessoas. Quero dizer, com tais questionamentos, que esquecemos de observar a singularidade de nossas formas de vida quando buscamos, ou cobramos de nós mesmos, corresponder a padrões genéricos.

Por outro lado, os padrões observados culturalmente mostram uma tendência a negar toda e qualquer forma de tristeza, tentando eliminá-la a qualquer preço. Drogas – lícitas e ilícitas, processos de esquecimento e alienação, atividades constantes, entre outras formas, denotam a preocupação em manter a felicidade geral. Se consideramos, em tempos anteriores, a tristeza como algo natural, como parte de um processo necessário às movimentações do ser humano em suas interações com o mundo, a tendência atual é não apenas buscar, mas exigir uma felicidade constante, ainda que adquirida artificialmente. Dessa perspectiva é possível observar uma modificação no modo de lidar com a felicidade e a tristeza, antes consideradas complementares, naturais e necessárias ao desenvolvimento humano, são hoje opostas: a felicidade sempre necessária, e a tristeza confundida com uma patologia que precisa ser extirpada, curada.

Allan Horwitz e Jerome Wakefield, no livro A tristeza perdida, mostram como a tristeza é confundida com a depressão, inclusive por médicos, que optam por medicar casos de tristeza. Será que a tristeza advinda de nossas insatisfações com a vida, de nossa reação às perdas, ao mal-estar deve ser simplesmente extirpada? Curada? Ou seria ela um indicativo da necessidade de encontrarmos formas para superarmos o que se colocou para nós como limitação, como incômodo?

O número de pessoas que tomam antidepressivos aumenta cotidianamente, o uso de drogas, feito por pessoas que buscam manter um estado de “felicidade” constante, também. O mundo não é perfeito, nós também não somos. A constatação das imperfeições, as insatisfações podem nos mover a transformar nossas vidas, a criar alternativas. Mas se nos contentarmos com isto que não está bom, suprindo nossas necessidades de bem-estar e prazer artificialmente, sem encararmos o que nos incomoda, simplesmente perpetuaremos as condições nas quais nos encontramos, ou pior, talvez estejamos permitindo que as condições indesejadas se alastrem, enquanto vivemos nossa felicidade artificial. A tristeza é, muitas vezes, inevitável ao movimento, à transformação.

Contudo, basta estarmos um pouco tristes para alguém já querer nos tirar de nosso estado. Muitos se aborrecem conosco se não abandonamos nossa tristeza em suas primeiras tentativas
. No mundo do trabalho, não há lugar para a tristeza, ela deve ser tratada, porque o profissional, seja de que área for, na maioria dos contextos deve estar sempre sorrindo. Ainda que seu trabalho seja inadequado a você, ainda que sua rotina seja extremamente aborrecida, ainda que seu salário não pague as contas do mês, é preciso que você se sinta feliz, perfeito, forte, vencedor. Isto é possível?

Este ser feliz, perfeito, forte não existe, ele é uma ficção, um ser abstrato e inatingível plenamente. Contudo, cobramos diariamente, de nós mesmos e dos outros, uma felicidade abstrata e perene. Temos momentos de felicidade, de bem-estar, de saúde, de vida, etc., mas tristeza, mal-estar, doença, morte também são partes constitutivas de nosso existir. É claro que não se trata de sucumbir a tais estados e eles se tornarem perenes, destruindo nossas possibilidades de existência. Trata-se, sim, de encontrarmos as formas possíveis para lidarmos com tais estados, trata-se de observarmos nossos processos e buscarmos as mudanças necessárias em nossas vidas.

Mas a busca da felicidade artificial nos leva, contrariamente, a um “fazer menos”, “viver menos”, para não colocarmos em risco uma pretensa estabilidade que denominamos felicidade. “Se é difícil estabelecer relações, e é difícil, melhor não se relacionar. Se há insatisfação com a carreira, assim é a vida, melhor não arriscar o certo”. Ao optarmos pelo não movimento a fim de evitarmos a tristeza, fazemos uma opção: já estamos em movimento, perpetuando um estado. Será que nosso movimento garantirá felicidade? Ou nos impedirá de alcançá-la? Temos consciência das possibilidades de realização daquilo que buscamos, das prováveis consequências de nossas escolhas? Sabemos como construir as bases para que nossas buscas possam ser realizadas? Estes são aspectos importantes para avaliarmos, mas também é preciso que tenhamos consciência que as coisas podem dar errado, e que se isto ocorrer, é natural que fiquemos tristes, não há nada errado com isso.

Referências Bibliográficas:

HORWITZ, A.; WAKEFIELD, J. A tristeza perdida: Como a psiquiatria transformou a depressão em moda. São Paulo: Summus, 2010.
ROTTERDAM, E. O elogio da loucura. São Paulo: Abril Cultural, 1973


Filosofia - O que é ser feliz?

por Monica Aiub

"A felicidade consiste em ser o que se é", afirmava Erasmo de Rotterdam no Elogio da Loucura "... a felicidade é algo final e autosuficiente, é o fim a que visam as ações" Aristóteles

Desde a Antiguidade, muitos filósofos consideraram a felicidade como o fim último da vida humana. Muitos foram os tratados sobre o que é a felicidade, sobre os caminhos para encontrá-la. Somos felizes? Em que consiste a felicidade?

Aristóteles inicia o livro I da Ética a Nicômacos discorrendo sobre a finalidade das ações que praticamos: "Se há, então, para as ações que praticamos, alguma finalidade que desejamos por si mesma, sendo tudo mais desejado por causa dela, e se não escolhemos tudo por causa de algo mais, evidentemente tal finalidade deve ser o bem e o melhor dos bens. Não terá então uma grande influência sobre a vida o conhecimento deste bem?"(cap. 2).

Epicuro, na Carta sobre a Felicidade, afirma que "o prazer é o início e o fim de uma vida feliz", mas faz uma ressalva:

Quando dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é a ausência de sofrimentos e de perturbações da alma. Não são, pois, bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de uma mesa farta que tornam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda escolha e de toda rejeição e que remova as opiniões falsas em virtude das quais uma imensa perturbação toma conta dos espíritos (Epicuro, 2002: 44-45).

Ser feliz é, muitas vezes, uma ideia associada a modelos previamente estabelecidos por nossa sociedade: o consumo desenfreado, a posse de objetos, dinheiro, fama, poder, status e o consumo de drogas lícitas ou ilícitas. Se observarmos nossos modos de vida hoje, veremos o quanto investimos na busca da felicidade, na ausência do sofrimento, na anestesia para as dores da existência. Ser feliz é, muitas vezes, uma ideia associada a modelos previamente estabelecidos por nossa sociedade: o consumo desenfreado, a posse de objetos, dinheiro, fama, poder, status. Quanto mais temos, mais tememos perder. Quanto menos temos, mais infelizes parecemos ser diante desse modelo.

Necessitamos atingir os parâmetros estipulados por um modelo econômico/social? Nossa felicidade se resume a quanto podemos gastar? E quando não temos recursos para gastar? E quando gastamos muito e, ainda assim, não atingimos o que considerávamos ser um estado de felicidade?

Há uma forte tendência atual a buscar a felicidade em drogas ou medicamentos. Anestesias para os problemas da existência, felicidade artificial, encontrada em drogas lícitas ou ilícitas. Necessitamos desses recursos? Se minha infelicidade é fruto de um problema que não resolvi, uma droga que provoque um estado de torpor, ou de felicidade artificial resolverá o problema?

Este é o movimento de muitas pessoas hoje. Buscam entorpecer-se para esquecer o que lhes traz sofrimento, o que lhes perturba a existência. Com isso, deixam ao lado os problemas, que ali permanecem, exigindo doses das drogas ou dos medicamentos cada vez maiores, somente assim conseguem não enxergar o que lhes perturba. Quando as dores se tornam insuportáveis, uma opção, muitas vezes, é desistir. Assumir o fracasso da existência e esperar, com a derrota, a morte.

Das muitas formas de morte, aquela que faz os dias parecerem sem fim, aquela que nos impede de ser o que somos, a morte em vida, é extremamente dolorosa. Então, mais alguns medicamentos para suportar a espera do fim. É preciso viver desta maneira? Alguém opta, livremente, por esta forma de existência?

Poderia ser um caminho mais adequado buscar formas para solucionar as questões que nos incomodam, ainda que isso implique em algum transtorno, em um pouco de sofrimento, em algumas dores? Talvez seja dolorido afastar os erros, os enganos, as falsas opiniões. Talvez seja triste descobrir que algumas coisas não são como pensávamos que fossem. Mais triste talvez seja perceber que o que escolhemos como caminho não é bem como imaginávamos ser. O que fazer diante de situações dessa natureza? Como produzir vida em nós?

Há quem não queira ser feliz? Lembro de Elizandra, uma moça que atendi que se revoltava toda vez que alguém perguntava a ela se fazia terapia porque buscava a felicidade. Elizandra não queria, e não quer ser feliz. Ser feliz, diz ela, numa sociedade como a nossa, em que se morre de fome e de miséria, em que se vê a violência a toda hora, em cada esquina, é ser alienado. Eu não quero ser alienada. Prefiro morrer a ser feliz dessa maneira. Minha infelicidade me faz buscar, incessantemente, formas de transformar a sociedade. Elizandra envolve-se constantemente em ações sociais, tentando encontrar formas de transformar o quadro de violência e miséria em que vivemos. Assim ela se sente bem, mas não feliz, pois, para ela, se estivesse feliz, não precisaria mais buscar.

Seria Elizandra louca por não querer a felicidade? Ou seria doentio o modo de ser que encontra felicidade gastando no shopping? Como distinguir entre uma "loucura" a ser contida ou uma inquietação criativa, necessária à construção da pessoa? Até que ponto a busca por "restabelecer a normalidade" não é um impedimento, um entrave à construção de um modo de ser singular? Poderia um tratamento que pretende "restabelecer a normalidade" transformar-se em um processo de alienação, acomodando as inquietações e adaptando a pessoa a um modo de ser construído socialmente? Até que ponto esse modo de ser é saudável?

"A felicidade consiste em ser o que se é", afirmava Erasmo de Rotterdam no Elogio da Loucura. Conhecer e respeitar aquilo que somos, as nossas necessidades, encontrar modos para exercer o que somos, pode ser um caminho saudável para a existência. Distante de padrões estipulados socialmente, longe da hipocrisia social que exige a anulação do que se é, como forma de ser, podemos valorizar tudo o que produz vida em nós.